Atalaiavigia fundamentalista · B3
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Fase 1 — Fundamentos · aula 3 de 25 · 3 min de leitura

As três demonstrações financeiras

Toda companhia aberta publica, a cada trimestre, três relatórios na CVM. Quase todo indicador que existe nasce de um deles. Entender os três é entender de onde vem cada número que você vai usar no resto do curso — e parar de aceitar números de boca de terceiros.

São como três fotos do mesmo corpo, tiradas de ângulos diferentes.

DRE — Demonstração de Resultado · o filme do ano

A DRE mostra o desempenho ao longo de um período (trimestre ou ano). Ela desce da receita até o lucro, tirando custos em camadas:

LinhaO que é
Receita líquidaTudo que entrou de vendas (já sem impostos sobre venda)
(−) Custos (CPV/CSV)O custo direto do que foi vendido
= Lucro brutoQuanto sobra da operação central
(−) DespesasVendas, administrativo, marketing
= EBIT (lucro operacional)Resultado do negócio antes de juros e impostos
(−) Juros da dívida e impostosO custo de capital de terceiros e o Leão
= Lucro líquidoA linha de baixo: o que é dos donos

Pergunta que a DRE responde: a empresa deu lucro no período?

Balanço Patrimonial · a foto de um dia

Enquanto a DRE é um filme, o balanço é uma foto de um instante (o último dia do trimestre). Ele obedece a uma identidade que sempre fecha:

Ideia-chave
Ativo = Passivo + Patrimônio Líquido. Tudo o que a empresa tem (ativos: caixa, fábricas, estoque, recebíveis) foi financiado por alguém: ou por terceiros (passivos: dívidas, fornecedores) ou pelos donos (patrimônio líquido). O PL é o que sobraria para os sócios se a empresa vendesse tudo e quitasse tudo.

Pergunta que o Balanço responde: a empresa é sólida? deve muito? quem financia o quê?

DFC — Fluxo de Caixa · o dinheiro de verdade

A DFC rastreia o dinheiro que de fato entrou e saiu do caixa, em três torneiras:

  • FCO (operacional): o caixa que a operação gera — o mais importante.
  • FCI (investimentos): o capex, compra de máquinas, aquisições.
  • FCF (financiamento): captação de dívida, pagamento de dividendos, emissão de ações.

Pergunta que a DFC responde: entrou dinheiro de verdade, ou foi só lucro no papel?

Como os três conversam (o ponto mais importante)

Eles não são independentes — encaixam um no outro:

  • O lucro líquido da DRE entra no patrimônio líquido do Balanço (a parte que não vira dividendo fica retida).
  • E esse mesmo lucro é o ponto de partida da DFC, que o ajusta até o caixa real.
Atenção
Por isso uma empresa pode "ter lucro" na DRE e não ter caixa na DFC: vendeu fiado e o dinheiro ainda não entrou; ou capitalizou despesas; ou inflou estoque. Lucro é opinião contábil; caixa é fato. A primeira pegadinha que separa amador de analista é checar se o lucro da DRE vira caixa na DFC. É o que o indicador "FCO ÷ Lucro" mede.

A régua mental

Guarde os três numa frase, e toda análise vira o cruzamento de três respostas:

  • DREganhou?
  • Balançoaguenta?
  • DFCé dinheiro mesmo?
Na sua carteira
No Atalaia, cada número da sua carteira vem direto dessas demonstrações na CVM — nada de "ouvi dizer". Quando o Tutor te mostra a receita e o lucro de uma posição, está lendo a DRE real dela.

Margem líquida

essênciaLucro líquido ÷ receita: de cada R$ 100 vendidos, quanto vira lucro no fim da linha, depois de todos os custos, juros e impostos.
como um analista vêMargem é uma das três alavancas do ROE (DuPont) e o termômetro do poder de preço: empresa com "fosso" defende a margem mesmo quando os custos sobem. Compare sempre dentro do setor — varejo vive de margem fina e giro alto; software vive de margem gorda e giro baixo. Margem caindo ano após ano é sintoma de competição comendo o fosso.
a fundoDecomponha a queda: margem bruta caindo = problema de custo/preço do produto; margem operacional caindo com bruta estável = despesas crescendo; margem líquida caindo sozinha = juros ou impostos. Em setores financeiros a "receita" tem outra natureza (intermediação/prêmios), então a margem líquida tradicional perde o sentido de comparação — use ROE e índices próprios do setor. E margem alta com FCO fraco é alerta de lucro contábil sem caixa.

Valor Patrimonial por Ação (VPA)

essênciaPatrimônio líquido ÷ número de ações: quanto do "papel" da empresa (o que ela tem menos o que ela deve) corresponde a cada ação.
como um analista vêÉ a régua contábil contra a qual o preço é comparado (preço ÷ VPA = P/VP). VPA crescendo ano após ano significa que a empresa retém lucro e o patrimônio dos sócios engorda — o efeito juros compostos dentro do balanço. VPA estagnado com lucro alto = empresa distribui quase tudo.
a fundoO VPA é valor CONTÁBIL, não de mercado: imóveis a custo histórico, intangíveis de aquisições e provisões podem distorcê-lo nos dois sentidos. Em bancos/seguradoras ele é mais "verdadeiro" (ativos financeiros marcados a mercado), por isso o P/VP×ROE é a leitura central do setor. Crescimento sustentável do VPA ≈ ROE × (1 − payout) — a taxa a que o patrimônio se multiplica sozinho.