Atalaiavigia fundamentalista · B3
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Fase 2 — Rentabilidade e qualidade · aula 7 de 25 · 4 min de leitura

ROE, ROIC e a fórmula DuPont

Caso vivo: esta aula usa a CURY3 como exemplo — abra a análise dela e confira os números reais enquanto lê.

Se você só pudesse aprender um conceito de análise, seria este. Retorno sobre capital responde à pergunta que define tudo: esta empresa é uma boa máquina de transformar dinheiro em mais dinheiro? Uma máquina que rende muito e reinveste nessa taxa é juros compostos acontecendo dentro do negócio — o sonho do investidor de longo prazo.

ROE — retorno sobre o patrimônio

ROE = Lucro Líquido ÷ Patrimônio Líquido

De cada R$ 100 que os donos têm na empresa, quanto ela gera de lucro por ano? ROE de 20% significa R$ 20 de lucro para cada R$ 100 de patrimônio.

Régua
Acima de 15% de forma consistente = qualidade. Acima de 20% sustentado por anos = elite. Abaixo de ~10% por muito tempo, em geral, é uma máquina fraca — a não ser que seja um setor naturalmente de baixo retorno ou um ano cíclico ruim.

A mesma "ação" na tela pode ser uma máquina ou um trambolho — e o ROE te diz qual em um único número. Uma construtora eficiente pode rodar com ROE de 60%+, enquanto uma empresa de educação em dificuldade fica na casa de um dígito. Idêntico "papel que sobe e desce" por fora; abismo por dentro.

ROIC — o ROE sem maquiagem

ROIC = Lucro operacional após impostos ÷ (Patrimônio + Dívida)

O ROE tem um defeito perigoso: a dívida o infla. Como o denominador do ROE é só o patrimônio dos donos, uma empresa pode pegar dinheiro emprestado, aplicar no negócio e fazer o ROE subir — mesmo sendo medíocre. É ROE de mentira, comprado com risco.

O ROIC corrige isso medindo o retorno sobre todo o capital empregado — o dos donos e o dos credores. Como inclui a dívida no denominador, não dá para "trapacear" usando alavancagem. É o ROE sem maquiagem.

Ideia-chave
A linha que separa criar de destruir valor: o ROIC precisa ser maior que o custo do capital. Com a Selic (o retorno sem risco) por volta de 14,5%, uma empresa cujo ROIC fica abaixo de ~14% está, na prática, destruindo valor — emprega capital e rende menos do que renderia parado num título público. Para que investir nela?

Esta é, provavelmente, a régua mais importante do curso inteiro.

ROE × ROIC na prática

Compare os dois lado a lado e a verdade aparece. Quando o ROIC é muito menor que o ROE, a diferença foi dívida fazendo barulho. Quando o ROIC é negativo com ROE alto, acenda o alarme:

EmpresaROEROICVeredito
Cury (CURY3)68,9%42,9%Cria muito valor
Mahle (LEVE3)62,0%27,9%Cria valor
Direcional (DIRR3)39,4%18,8%Cria valor
Vitru (VTRU3)30,0%−2,9%ROE alto, ROIC negativo → suspeito
Cruzeiro Sul (CSED3)16,5%18,3%Cria valor
Smart Fit (SMFT3)11,7%11,7%Na linha d'água
Localiza (RENT3)8,6%10,2%Baixo — mas cíclico no pico do juro
Cogna (COGN3)4,9%6,8%Destrói valor
Atenção
O caso da Vitru é a lição de ouro: ROE de 30% com ROIC de −2,9%. O patrimônio é pequeno e a dívida é grande, então o ROE parece ótimo — mas o capital total empregado rende negativo. Sem olhar o ROIC, você compraria uma destruidora de valor achando que é elite.

DuPont — de onde vem o ROE

Por que uma empresa tem ROE de 69% e outra de 8,6%? A fórmula DuPont abre o ROE em três alavancas e revela a fonte da rentabilidade:

ROE = Margem líquida × Giro do ativo × Alavancagem

  • Margem (lucro ÷ receita): a empresa cobra caro / é eficiente? (cobra bem)
  • Giro (receita ÷ ativo): ela usa pouco ativo para vender muito? (gira rápido)
  • Alavancagem (ativo ÷ patrimônio): quanto de dívida sustenta o ativo? (usa dívida)

Há três jeitos de ter ROE alto — e eles não valem o mesmo:

Ideia-chave
ROE alto por margem e giro = qualidade saudável (o negócio é bom de verdade). ROE alto só por alavancagem = risco disfarçado (a empresa é medíocre, mas a dívida maquia o número). A DuPont é o detector de mentira: ela mostra se o ROE veio de excelência operacional ou de endividamento.

Uma construtora com margem ~18%, giro ~0,94 e que é caixa líquido (mais caixa que dívida) tem um ROE limpo, todo vindo da operação. Já uma empresa que só atinge ROE alto empilhando dívida sobre um patrimônio pequeno está fingindo qualidade — e o ROIC desmascara.

Recapitulando

  • ROE responde "rende sobre o capital dos donos?" — régua: >15% consistente.
  • ROIC responde "rende sobre TODO o capital, sem maquiagem de dívida?" — tem que superar o custo de capital (~Selic).
  • DuPont responde "de onde vem esse ROE?" — margem e giro são saudáveis; alavancagem é frágil.
Na sua carteira
No Modo Tutor, o passo 2 ("A máquina rende?") mostra o ROE real de cada posição sua e te manda compará-lo com a régua e com a Selic. Faça isso para cada ação que você tem: separe as máquinas dos trambolhos.

Retorno sobre o Patrimônio (ROE)

essênciaLucro ÷ patrimônio: de cada R$ 100 que os donos têm na empresa, quanto ela gera de lucro por ano? ROE de 20% = R$ 20. Régua d'A Lente: acima de 15% consistente = qualidade; acima de 20% sustentado = elite.
como um analista vêO ROE responde "esta empresa é uma boa máquina de transformar dinheiro em mais dinheiro?". Mas atenção a duas leituras: (1) um ano isolado não diz nada — qualidade é ROE alto CONSISTENTE; (2) nunca leia o ROE sozinho: compare-o com o P/VP (quanto você paga por esse patrimônio) e com a Selic (o retorno sem risco — se a empresa rende menos que o título público, por que correr o risco?).
a fundoA fórmula DuPont abre o ROE em três alavancas: margem líquida × giro do ativo × alavancagem (Ativo/PL). Três jeitos de ter ROE alto: cobrar caro (margem), girar rápido (giro) ou usar dívida (alavancagem). ROE alto por margem e giro = qualidade saudável; ROE alto só por alavancagem = risco disfarçado — é assim que empresa medíocre finge qualidade. Por isso o ROIC ("o ROE sem maquiagem") é o teste de confirmação: ele inclui a dívida no denominador e não dá para trapacear. Em bancos e seguradoras, compare o ROE com o custo do capital próprio, não com ROIC.

Retorno sobre o Capital Investido (ROIC)

essênciaRetorno sobre TODO o capital (dos donos + dos credores). É "o ROE sem maquiagem": como inclui a dívida no denominador, não dá para inflar com alavancagem.
como um analista vêA régua mais importante d'A Lente: ROIC tem que superar o custo do capital. Com a Selic a ~14,5%, uma empresa com ROIC abaixo de ~14% está, na prática, destruindo valor — emprega capital e gera menos do que ele renderia parado num título público. ROE alto com ROIC baixo (ou negativo) é sinal clássico de retorno fabricado com dívida.
a fundoROIC = lucro operacional após impostos (NOPAT) ÷ capital investido (patrimônio + dívida). A diferença ROIC − custo de capital (WACC) é o "spread" de criação de valor; o valor criado de fato é o spread vezes o capital empregado — empresa pequena com spread enorme pode criar menos valor que gigante com spread modesto. Na Magic Formula de Greenblatt, o ROIC usa só capital de giro líquido + imobilizado líquido no denominador (capital "tangível" da operação). Não se aplica a bancos/seguradoras: o balanço financeiro não separa capital operacional de "estoque".