Agora juntamos tudo. Vamos rodar o método inteiro numa empresa real — a Cury (CURY3) — na ordem exata das 4 perguntas. Repare em como o preço só aparece no quinto passo, e em como a contra-tese fecha a análise.
Passo 1 · O negócio é bom?
Incorporadora de imóveis populares (Minha Casa Minha Vida), atuando em SP e RJ. Ganha construindo e vendendo apartamentos com financiamento subsidiado. Modelo asset-light, de giro rápido: lança, vende na planta e constrói com o dinheiro já entrando. É um negócio que dá para entender numa frase — passou no círculo de competência. ✔
Passo 2 · O dono é confiável?
Controlada pela família Cury, com a Cyrela como sócia experiente. Novo Mercado, tag along 100%, free float ~52% — o selo máximo de governança. Risco político: zero. A ressalva fica fora do balanço: o negócio depende do programa habitacional MCMV (risco regulatório do setor, não da empresa). ✔
Passo 3 · É uma boa máquina? (rentabilidade)
ROE de 68,9% e ROIC de 42,9% — muito acima da linha d'água. A DuPont mostra que isso vem de margem (~18%) e giro (~0,94), não de dívida → qualidade limpa, não maquiada. Crescimento real: receita +25% e lucro +31% ao ano em 5 anos, com 28 trimestres seguidos de geração de caixa. A foto E o filme batem. ✔✔
Passo 4 · É saudável? (balanço)
Caixa líquido (dívida líquida negativa, −0,29x EBITDA), liquidez corrente de 1,94. A tesoura "custo da dívida × ROIC" nem se aplica — não há dívida líquida para cortar. Sobrevive a qualquer aperto de crédito. ✔✔✔
Passo 5 · O preço convida? (valuation)
P/L de 9,06 (earnings yield ~15%, acima da Selic e com lucro crescente), EV/EBITDA de 6,62, P/VP de 6,25 — alto no papel, mas contra um ROE de 69% é barato (módulo 10!). DY de ~14% com payout de 28% = paga muito e reinveste muito. Não está esticada. ✔
Passo 6 · A contra-tese (obrigatória)
Onde isto pode dar errado? (1) é construtora — setor com histórico de destruir capital; (2) depende do MCMV — mudança de regra muda a demanda; (3) inflação de obra comprime a margem; (4) um ROE de 69% normaliza com o tempo (não dura para sempre). O risco real é setorial/político, não a empresa.
Veredito
Joia de qualidade, preço cético, balanço de fortaleza, governança máxima — aprovada nas 4 perguntas. Confiança alta na empresa; o risco mora no setor, não na gestão. "Consistente de verdade", comprovada no filme (anos de números), não só na foto (um trimestre).