Atalaiavigia fundamentalista · B3
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Fase 5 — Prática e referência · aula 20 de 25 · 3 min de leitura

Caso ao vivo: dissecando a Cury

Caso vivo: esta aula usa a CURY3 como exemplo — abra a análise dela e confira os números reais enquanto lê.

Agora juntamos tudo. Vamos rodar o método inteiro numa empresa real — a Cury (CURY3) — na ordem exata das 4 perguntas. Repare em como o preço só aparece no quinto passo, e em como a contra-tese fecha a análise.

Passo 1 · O negócio é bom?

Incorporadora de imóveis populares (Minha Casa Minha Vida), atuando em SP e RJ. Ganha construindo e vendendo apartamentos com financiamento subsidiado. Modelo asset-light, de giro rápido: lança, vende na planta e constrói com o dinheiro já entrando. É um negócio que dá para entender numa frase — passou no círculo de competência. ✔

Passo 2 · O dono é confiável?

Controlada pela família Cury, com a Cyrela como sócia experiente. Novo Mercado, tag along 100%, free float ~52% — o selo máximo de governança. Risco político: zero. A ressalva fica fora do balanço: o negócio depende do programa habitacional MCMV (risco regulatório do setor, não da empresa). ✔

Passo 3 · É uma boa máquina? (rentabilidade)

ROE de 68,9% e ROIC de 42,9% — muito acima da linha d'água. A DuPont mostra que isso vem de margem (~18%) e giro (~0,94), não de dívida → qualidade limpa, não maquiada. Crescimento real: receita +25% e lucro +31% ao ano em 5 anos, com 28 trimestres seguidos de geração de caixa. A foto E o filme batem. ✔✔

Passo 4 · É saudável? (balanço)

Caixa líquido (dívida líquida negativa, −0,29x EBITDA), liquidez corrente de 1,94. A tesoura "custo da dívida × ROIC" nem se aplica — não há dívida líquida para cortar. Sobrevive a qualquer aperto de crédito. ✔✔✔

Passo 5 · O preço convida? (valuation)

P/L de 9,06 (earnings yield ~15%, acima da Selic e com lucro crescente), EV/EBITDA de 6,62, P/VP de 6,25 — alto no papel, mas contra um ROE de 69% é barato (módulo 10!). DY de ~14% com payout de 28% = paga muito e reinveste muito. Não está esticada. ✔

Passo 6 · A contra-tese (obrigatória)

Onde isto pode dar errado? (1) é construtora — setor com histórico de destruir capital; (2) depende do MCMV — mudança de regra muda a demanda; (3) inflação de obra comprime a margem; (4) um ROE de 69% normaliza com o tempo (não dura para sempre). O risco real é setorial/político, não a empresa.

Veredito

Joia de qualidade, preço cético, balanço de fortaleza, governança máxima — aprovada nas 4 perguntas. Confiança alta na empresa; o risco mora no setor, não na gestão. "Consistente de verdade", comprovada no filme (anos de números), não só na foto (um trimestre).

Ideia-chave
Reparou na ordem? Negócio → dono → qualidade → saúde → preço → contra-tese → veredito. O preço veio em quinto. E a contra-tese é inegociável: se você não consegue argumentar contra a sua própria ideia, você não a entendeu de verdade.
Na sua carteira
Agora faça você: abra o Modo Tutor numa das suas posições e percorra esses mesmos passos com os números reais dela. Depois, abra a página de análise profunda dessa ação no Atalaia e confronte. Repita com uma empresa por semana — é assim que o método vira reflexo.

Retorno sobre o Patrimônio (ROE)

essênciaLucro ÷ patrimônio: de cada R$ 100 que os donos têm na empresa, quanto ela gera de lucro por ano? ROE de 20% = R$ 20. Régua d'A Lente: acima de 15% consistente = qualidade; acima de 20% sustentado = elite.
como um analista vêO ROE responde "esta empresa é uma boa máquina de transformar dinheiro em mais dinheiro?". Mas atenção a duas leituras: (1) um ano isolado não diz nada — qualidade é ROE alto CONSISTENTE; (2) nunca leia o ROE sozinho: compare-o com o P/VP (quanto você paga por esse patrimônio) e com a Selic (o retorno sem risco — se a empresa rende menos que o título público, por que correr o risco?).
a fundoA fórmula DuPont abre o ROE em três alavancas: margem líquida × giro do ativo × alavancagem (Ativo/PL). Três jeitos de ter ROE alto: cobrar caro (margem), girar rápido (giro) ou usar dívida (alavancagem). ROE alto por margem e giro = qualidade saudável; ROE alto só por alavancagem = risco disfarçado — é assim que empresa medíocre finge qualidade. Por isso o ROIC ("o ROE sem maquiagem") é o teste de confirmação: ele inclui a dívida no denominador e não dá para trapacear. Em bancos e seguradoras, compare o ROE com o custo do capital próprio, não com ROIC.

Retorno sobre o Capital Investido (ROIC)

essênciaRetorno sobre TODO o capital (dos donos + dos credores). É "o ROE sem maquiagem": como inclui a dívida no denominador, não dá para inflar com alavancagem.
como um analista vêA régua mais importante d'A Lente: ROIC tem que superar o custo do capital. Com a Selic a ~14,5%, uma empresa com ROIC abaixo de ~14% está, na prática, destruindo valor — emprega capital e gera menos do que ele renderia parado num título público. ROE alto com ROIC baixo (ou negativo) é sinal clássico de retorno fabricado com dívida.
a fundoROIC = lucro operacional após impostos (NOPAT) ÷ capital investido (patrimônio + dívida). A diferença ROIC − custo de capital (WACC) é o "spread" de criação de valor; o valor criado de fato é o spread vezes o capital empregado — empresa pequena com spread enorme pode criar menos valor que gigante com spread modesto. Na Magic Formula de Greenblatt, o ROIC usa só capital de giro líquido + imobilizado líquido no denominador (capital "tangível" da operação). Não se aplica a bancos/seguradoras: o balanço financeiro não separa capital operacional de "estoque".

Preço / Lucro (P/L) e o earnings yield

essênciaPreço ÷ lucro por ação: quantos anos do lucro atual você paga pela ação. P/L 10 = dez anos de lucro pelo preço de hoje.
como um analista vêInvertido, o P/L vira o earnings yield (1 ÷ P/L): o lucro como "juro" sobre o preço, comparável direto com a Selic. P/L 10 = yield de 10%. Se a renda fixa paga 14,5% garantido e a ação "rende" 10% com risco, o preço precisa se justificar por crescimento. Cuidado: yield alto só vale se o lucro for real, recorrente e crescente — earnings yield de 30% quase sempre é o mercado dizendo "não acredito nesse lucro".
a fundoO P/L é cego à dívida (o EV/EBITDA corrige isso somando a dívida líquida ao preço) e cego ao ciclo (lucro de pico encolhe o P/L na pior hora — o "value trap cíclico"). Múltiplo nunca se lê sozinho: sempre contra o próprio histórico da empresa e contra os pares do MESMO setor — comparar P/L de banco com tech é erro de principiante. Lucro contábil também não é caixa: confira a qualidade do lucro (FCO ≥ lucro) antes de confiar no P/L.